No primeiro dia de festival de música, eu já tinha jogado a toalha. O caras lindos eram abertamente homossexuais e os maisoumeninhos que chegaram em mim até então eram bem sem tempero. Já era tarde e eu já estava cansada, então achei um puff para sentar com a minha amiga. Foi de lá que visualizei uma agradável surpresa. Ele era loiro, alto e não fez apitar o meu gaydar (radar gay). Não gosto muito de loiros, mas ele nunca se interessaria por mim mesmo. Foi quando vi ele se aproximando, vindo na minha direção. "Não pode ser", pensei. "Ele vai chegar na minha amiga". Mas ele chegou, agachou, e se apoiou na minha perna.
— Posso me apoiar na sua perna? — perguntou.
— Tudo bem — ele já estava apoiado mesmo.
— O que você faz aqui tristonha? — puxou assunto, olhando bem sério para mim.
— Eu não estou triste, estou esperando o outro show começar — tentei ser simpática, retribuindo o olhar.
— Eu não gosto dos shows de hoje. Prefiro os de amanhã. Você não gosta dela? — perguntou, apontando para o palco de onde se apresentava Tulipa Ruiz.
— Eu gosto, sim. Só vim pra cá porque tô cansada e também não gosto de Ivete — disse, querendo ver se ele expressava seu gosto musical. Muito importante isso.
— Você não gosta de velho? — ele questionou com os olhos arregalados.
— Nããão. Eu não gosto de I-ve-te San-ga-lo, ela está tocando no palco principal agora — e apontei para o telão lá longe. Dava para ouvir os agudos inconfundíveis dela.
— Meu, você está pior (de bêbada) que eu. Não tem Ivete nenhuma lá — ele me disse, com um tom condenador.
Porra. O cara me chamou de bêbada e eu nem tomei 2 cervejas ainda para não precisar ir ao banheiro. Vá tomar no cu. Mas vamos dar uma chance. Sem Intolerância, Camila. Ele é gatinho.
— Tem sim — disse paciente. — Não tem? — ohei para a minha amiga esperando cumplicidade. Ela confirmou.
— Ah — disse ele desconversando. — Mas porque você esta aqui, perdendo o tempo, sentada. Que feio!! — continuou.
— Mas eu não tenho preconceito com coisas feias — brinquei.
— O quê? — Gritou ele ofendido. — Você me chamou de feio? — E levantou.
— Não, — eu disse em tom condescendente — você disse que era feio eu estar sentada e eu disse que não tenho nada contra coisas feias — desenhei.
— Fulano! — ele chamou o amigo, que veio do nosso lado — Ela me chamou de feio.
Eu repeti ao amigo o que eu tinha dito, mas ele ficou indignado comigo também e os dois foram embora chateados.
Nem me dei ao trabalho de tentar evitar ou de me irritar. Não há beleza que compense burrice e surdez juntas.
E assim morrerei solteira. Fica registrada aqui a previsão.